Desafios às Competências/Papel do Professor/Formador

Deixo aqui a minha reflexão sobre o tema proposto, que farei do ponto de vista de alguém que fez a transição da formação em sala para a formação a distância e que o fez numa altura em que é a Internet o meio principal de difusão de conteúdos formativos nesta modalidade.

Julgo que uma forma interessante de abordar este tema é recuperar a ideia proposta por M. McLuhan de que qualquer tecnologia produz uma tétrade de efeitos: amplifica uma determinada capacidade, torna obsoletas outras, recupera formas ou capacidades que haviam sido, por seu turno, tornadas obsoletas anteriormente, e finalmente reverte para algo diferente quando as capacidades ampliadas são levadas ao limite (Sandstrom: 2010)

Deste ponto de vista, que impacto têm os novos media, e particularmente a Internet, na atividade formativa?

  • Amplificação: do acesso a públicos (possibilidade de levar a formação a públicos muito mais alargados, quer em termos quantitativos, quer geográficos) e do acesso a recursos (acelerando enormemente as tarefas de pesquisa de informação e ampliando drasticamente o leque de recursos pedagógicos disponíveis).
  • Obsolência: ou pelo menos questionamento da ideia do formador como detentor privilegiado do saber ou ponto central do processo formativo, face ao acesso generalizado a recursos educativos e formativos (o que inclui o acesso a redes sociais cada vez mais alargadas). Este acesso generalizado torna também cada vez mais questionáveis os mecanismos de avaliação de conhecimentos que se baseiem apenas na memorização factual de curto prazo. Como sustenta um artigo de S. Wheeler a propósito do chamado cheating watch, se podemos ter 4.5 Gb de informação num dispositivo que se usa no pulso, que sentido fará um sistema de avaliação que assente na mera memorização de factos? (Wheeler: 2016).
  • Recuperação: da palavra escrita como meio principal de comunicação. Apesar da importância do multimédia no desenho de conteúdos formativos (Mayer e Clark:2003), o texto escrito ganhou, com o ensino e formação a distância, uma importância que não tinha na formação presencial.
  • Reversão: Se levada ao limite, a formação a distância pode acabar por ter dois efeitos que vão em sentido oposto às capacidades ampliadas: uma massificação que não considera os contextos de base onde destinatários se inserem, e que procura chegar a todo lado apenas porque é possível fazê-lo – “o possível torna-se desejável”, como é referido no artigo da Prof Lina Morgado (Morgado:2001) – e a sobrecarga de informação, ou seja, a crescente dificuldade em separar informação fidedigna de ruído e em gerir toda a informação a que temos acesso hoje em dia (de acordo com a Royal Society, havia, em 2011, cerca de 25.000 publicações científicas, para as quais contribuem mais de 7 milhões de investigadores em todo o mundo (Royal Society: 2011)).

Esta possível tétrade de efeitos ajuda a sintetizar alguns dos desafios que assim se colocam neste âmbito. Mais uma vez, farei este exercício do meu ponto de vista particular, o da formação a distância:

  • Ter uma atenção constante à importância do contexto na conceção de programas formativos: um programa formativo que pretenda transmitir de maneira uniforme um conjunto de mensagens-chave a um grande número de pessoas é necessariamente diferente de um programa que vise promover o questionamento, a discussão e a negociação de intersubjetividades no seio de um pequeno grupo. É necessário estar preparado para os vários cenários, conseguindo, por assim dizer, ser behaviourista, construtivista ou conectivista consoante os contextos assim o exijam.
  • Agir menos como detentor privilegiado do saber e mais como facilitador ou curador de conteúdos, e ser capaz de desenvolver, em si e nos outros, as competências metacognitivas necessárias para avaliar a fidedignidade das múltiplas fontes de informação hoje em dia disponíveis
  • Conhecer a fundo a comunicação mediada por computador, e em particular a comunicação escrita, dada a sua prevalência na relação com os públicos destinatários
  • Deve ser capaz de aprender e reaprender constantemente; esta constatação, de tão banalizada, quase perdeu a sua força, mas é uma realidade premente para um formador online, de cada vez, por exemplo, que uma determinada mudança tecnológica (como o declínio atual dos conteúdos em formato swf e a crescente generalização do html5) obriga a mudar workflows previamente estabelecidos ou aprender novas ferramentas

Estes desafios colocam certamente muitas dificuldades, mas são igualmente, por um lado, uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e, por outro, desafiam-nos para a construção de experiências de aprendizagem que façam pontes criativas entre o conhecimento acumulado ao longo de séculos na área da pedagogia e andragogia e as novas tecnologias e que promovam a meta-aprendizagem como competência crucial do nosso tempo. Citando novamente o artigo de S. Wheeler acima referido: «What if exams were more focused on assessing how well a student could learn, rather than what they had memorised?»

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Referências:

Mayer, R. e Clark, R (2003)  E-learning and the Science of Instruction.  San Francisco, CA: Pfeiffer

Morgado, L. (2001). O papel do professor em contextos de ensino online: Problemas e Virtualidades. Discursos. III Série, n.º especial, pp.125-138. Universidade Aberta.

Royal Society (2011). Knowledge, Networks and Nations: Global scientific collaboration in the 21st century. Retirado de https://royalsociety.org/~/media/Royal_Society_Content/policy/publications/2011/4294976134.pdf em 2016-03-10

Sandstrom, G. (2012). Laws of media – The four effects: A McLuhan contribution to social epistemology. Social Epistemology Review and Reply Collective 1 (12): 1-6. Retirado online de http://social-epistemology.com/2012/11/11/gregory-sandstrom-laws-of-media-the-four-effects-a-mcluhan-contribution-to-social-epistemology/ em 2016-03-10

Wheeler, S. (2016). The ‘cheating watch scandal’ – time for a change in our exams system. Retirado de http://www.steve-wheeler.co.uk/2016/03/the-cheating-watch-scandal-are-we.html em 2016-03-10